Sondagem SPT na prática: como ler o relatório
- Cristiano Goulart Duarte
- há 1 dia
- 3 min de leitura
Se tem uma etapa que eu considero “barata” perto do tamanho do problema que ela evita, é a sondagem SPT. É ela que vai dizer, na prática, o que tem embaixo do seu terreno: se é areia fofa, argila mole, camada orgânica, nível d’água alto, e quando o solo começa a “segurar” fundação de verdade.
Vou explicar o que é o SPT, como ele funciona e como ler o relatório, usando um exemplo real do relatório de uma de nossas obras.

O que é a sondagem SPT (sem enrolação)
SPT significa Standard Penetration Test (Ensaio de Penetração Padrão). No canteiro, é o seguinte:
A equipe perfura até uma cota (profundidade)
Coloca um amostrador padrão
E crava esse amostrador com um martelo de 65 kg caindo 75 cm
Conta quantos golpes precisa para penetrar 30 cm (na prática, são 45 cm cravados e você usa os últimos 30 cm pra calcular o N SPT)
O resultado é o N (ou NSPT): quanto maior o N, mais resistente/compacto o solo tende a ser (no geral).
Pra que serve na obra (o que muda de verdade)
Com o SPT você consegue:
Escolher tipo de fundação com segurança (sapata, radier, estaca, etc.)
Estimar capacidade de carga e risco de recalque
Entender onde tem camada fraca (orgânica, muito fofa, muito mole)
Ver o nível d’água (fundamental pra escavação e fundação)
Evitar “surpresas” tipo: cavou e virou lama, ou bateu em material muito duro cedo
Como ler um perfil de sondagem SPT (o que olhar primeiro)
Quando você abre a folha do furo (ex.: SP-01), eu recomendo olhar nessa ordem:
1) Descrição do material por camada
É o “raio-x” do subsolo: areia, silte, argila, presença de pedregulho, matéria orgânica, etc.
No SP-01, o relatório mostra camadas iniciais com areias fofas e com matéria orgânica, e depois uma transição para material bem mais resistente (alteração de rocha).
2) NSPT por profundidade
É a coluna de golpes. Ela costuma “contar a história”:
N baixo: solo fofo/mole (atenção pra recalque)
N subindo: solo ficando mais competente
N muito alto / “nega” / indicação tipo “48/15”: tendência de recusa, material muito compacto/duro
3) Nível d’água (NA)
No SP-01, aparece medição de NA (inicial/10 min/final) — isso muda totalmente o jogo de escavação e fundação.

Exemplo real do primeiro ponto (SP-01): como calcular e interpretar o 1º NSPT
Vamos pegar o primeiro ensaio do furo SP-01, que normalmente ocorre no primeiro metro ensaiado.
No boletim, os golpes aparecem em três trechos de 15 cm (total 45 cm):
1º trecho (15 cm) = 2 golpes
2º trecho (15 cm) = 1 golpe
3º trecho (15 cm) = 1 golpe
Como calcula o NSPT (N)?➡️ N = (2º trecho) + (3º trecho)➡️ N = 1 + 1 = 2
Interpretação prática (como engenheiro de obra pensa):
N = 2 é muito baixo → indica solo bem fofo nessa profundidade.
Em obra, isso acende alerta para:
recalque se tentar fundação rasa “na camada ruim”
necessidade de aprofundar até camada melhor, ou avaliar solução como radier bem dimensionado / melhoria de solo / fundação profunda (depende do projeto e cargas)
E no próprio SP-01 dá pra ver que, mais embaixo, o N sobe forte (indicando material mais competente), o que combina com a descrição de camadas passando para alteração de rocha mais compacta.
O que esse comportamento “N baixo em cima e alto embaixo” costuma significar
Isso é bem comum em terreno de região litorânea/baixada e áreas com deposição:
Camada superficial: areia com finos / matéria orgânica / solo fofo
Abaixo: material mais “travado”, às vezes areia mais densa ou alteração de rocha
Na prática de obra:
Não dá pra confiar na camada de cima pra sapata “padrão” sem estudo
Normalmente o caminho é:
Definir a cota de apoio em camada mais confiável ou
Escolher um sistema que “distribua” (radier) ou
Ir pra estaca, se cargas e solo pedirem
Quem bate o martelo é a sondagem, mas quem “assina a decisão” é o projeto de fundações com base nesses dados.
Erros comuns que eu vejo em obra com SPT
“N baixo, mas vamos compactar e pronto”
Compactação ajuda em aterro controlado, mas não transforma camada orgânica/fofa em solo bom de um dia pro outro.
“Sapata em qualquer lugar, porque sempre deu certo”
Até o dia que dá recalque diferencial e trinca aparece onde ninguém quer: fachada, piso, parede de divisa.
Ignorar o nível d’água
NA alto = muda escavação, muda estabilidade de vala, muda custo, muda fundação.
Checklist rápido: o que você deve pedir/confirmar no relatório
Quantos furos foram feitos e onde (croqui)
Profundidade final de cada furo
Camadas descritas (tipo de solo e observações)
NSPT por profundidade (tendência)
Nível d’água (inicial e estabilizado)
Indicação de impenetrável/recusa e profundidade
No relatório que você mandou, consta que foram 5 furos e há os perfis individuais com NA e NSPT.







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