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Sondagem SPT na prática: como ler o relatório

Se tem uma etapa que eu considero “barata” perto do tamanho do problema que ela evita, é a sondagem SPT. É ela que vai dizer, na prática, o que tem embaixo do seu terreno: se é areia fofa, argila mole, camada orgânica, nível d’água alto, e quando o solo começa a “segurar” fundação de verdade.

Vou explicar o que é o SPT, como ele funciona e como ler o relatório, usando um exemplo real  do relatório de uma de nossas obras.



Sondagem SPT
Sondagem SPT

O que é a sondagem SPT (sem enrolação)

SPT significa Standard Penetration Test (Ensaio de Penetração Padrão). No canteiro, é o seguinte:

  • A equipe perfura até uma cota (profundidade)

  • Coloca um amostrador padrão

  • E crava esse amostrador com um martelo de 65 kg caindo 75 cm

  • Conta quantos golpes precisa para penetrar 30 cm (na prática, são 45 cm cravados e você usa os últimos 30 cm pra calcular o N SPT)

O resultado é o N (ou NSPT): quanto maior o N, mais resistente/compacto o solo tende a ser (no geral).






Pra que serve na obra (o que muda de verdade)

Com o SPT você consegue:

  • Escolher tipo de fundação com segurança (sapata, radier, estaca, etc.)

  • Estimar capacidade de carga e risco de recalque

  • Entender onde tem camada fraca (orgânica, muito fofa, muito mole)

  • Ver o nível d’água (fundamental pra escavação e fundação)

  • Evitar “surpresas” tipo: cavou e virou lama, ou bateu em material muito duro cedo


Como ler um perfil de sondagem SPT (o que olhar primeiro)

Quando você abre a folha do furo (ex.: SP-01), eu recomendo olhar nessa ordem:

1) Descrição do material por camada

É o “raio-x” do subsolo: areia, silte, argila, presença de pedregulho, matéria orgânica, etc.

No SP-01, o relatório mostra camadas iniciais com areias fofas e com matéria orgânica, e depois uma transição para material bem mais resistente (alteração de rocha).

2) NSPT por profundidade

É a coluna de golpes. Ela costuma “contar a história”:

  • N baixo: solo fofo/mole (atenção pra recalque)

  • N subindo: solo ficando mais competente

  • N muito alto / “nega” / indicação tipo “48/15”: tendência de recusa, material muito compacto/duro

3) Nível d’água (NA)

No SP-01, aparece medição de NA (inicial/10 min/final) — isso muda totalmente o jogo de escavação e fundação.


Exemplo real do primeiro ponto (SP-01): como calcular e interpretar o 1º NSPT

Vamos pegar o primeiro ensaio do furo SP-01, que normalmente ocorre no primeiro metro ensaiado.

No boletim, os golpes aparecem em três trechos de 15 cm (total 45 cm):

  • 1º trecho (15 cm) = 2 golpes

  • 2º trecho (15 cm) = 1 golpe

  • 3º trecho (15 cm) = 1 golpe

Como calcula o NSPT (N)?➡️ N = (2º trecho) + (3º trecho)➡️ N = 1 + 1 = 2

Interpretação prática (como engenheiro de obra pensa):




  • N = 2 é muito baixo → indica solo bem fofo nessa profundidade.

  • Em obra, isso acende alerta para:

    • recalque se tentar fundação rasa “na camada ruim”

    • necessidade de aprofundar até camada melhor, ou avaliar solução como radier bem dimensionado / melhoria de solo / fundação profunda (depende do projeto e cargas)

E no próprio SP-01 dá pra ver que, mais embaixo, o N sobe forte (indicando material mais competente), o que combina com a descrição de camadas passando para alteração de rocha mais compacta.

O que esse comportamento “N baixo em cima e alto embaixo” costuma significar

Isso é bem comum em terreno de região litorânea/baixada e áreas com deposição:

  • Camada superficial: areia com finos / matéria orgânica / solo fofo

  • Abaixo: material mais “travado”, às vezes areia mais densa ou alteração de rocha

Na prática de obra:

  • Não dá pra confiar na camada de cima pra sapata “padrão” sem estudo

  • Normalmente o caminho é:

    1. Definir a cota de apoio em camada mais confiável ou

    2. Escolher um sistema que “distribua” (radier) ou

    3. Ir pra estaca, se cargas e solo pedirem

Quem bate o martelo é a sondagem, mas quem “assina a decisão” é o projeto de fundações com base nesses dados.


Erros comuns que eu vejo em obra com SPT

“N baixo, mas vamos compactar e pronto”

Compactação ajuda em aterro controlado, mas não transforma camada orgânica/fofa em solo bom de um dia pro outro.

“Sapata em qualquer lugar, porque sempre deu certo”

Até o dia que dá recalque diferencial e trinca aparece onde ninguém quer: fachada, piso, parede de divisa.

Ignorar o nível d’água

NA alto = muda escavação, muda estabilidade de vala, muda custo, muda fundação.


Checklist rápido: o que você deve pedir/confirmar no relatório

  • Quantos furos foram feitos e onde (croqui)

  • Profundidade final de cada furo

  • Camadas descritas (tipo de solo e observações)

  • NSPT por profundidade (tendência)

  • Nível d’água (inicial e estabilizado)

  • Indicação de impenetrável/recusa e profundidade

No relatório que você mandou, consta que foram 5 furos e há os perfis individuais com NA e NSPT.

 
 
 

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