Todo fim de ano chega a mesma pergunta: o que vai estar em alta na construção no ano que vem? E quase sempre a resposta vem de quem vende o material.
Então vou responder do outro lado do balcão — de quem compra, especifica e paga a conta da obra. Os materiais de construção em alta em 2027 são os que resolvem dois problemas que todo construtor já sente: falta de mão de obra e custo que não para de subir. O resto é moda.
O que está puxando a mudança (e não é design)
Antes da lista, o motivo. Material não fica "em alta" porque é bonito. Fica porque resolve um problema caro.
Hoje os dois problemas mais caros da obra são:
- Gente. Achar pedreiro bom está cada vez mais difícil. Tudo que reduz hora de mão de obra no canteiro ganha espaço.
- Prazo e custo indireto. Cada mês a mais de obra é aluguel de equipamento, equipe, financiamento correndo.
Por isso a industrialização é o eixo de tudo: o que puder chegar pronto da fábrica, chega. Uma análise publicada na Exame com o setor aponta exatamente isso — métodos artesanais, com muita mão de obra, perdendo espaço para processos industrializados.
E tem um dado que mostra para onde vai o dinheiro: segundo a Abramat, os materiais de acabamento devem passar de 30% das compras de construtoras em 2026. A estrutura virou commodity; a briga agora é no acabamento.
1. Drywall: deixou de ser "coisa de escritório"
Durante anos, drywall foi visto como parede de shopping e escritório. Isso mudou.
Segundo a Saint-Gobain, o consumo de drywall por habitante no Brasil dobrou desde 2020, chegando a cerca de 0,7 m² por pessoa ao ano. E a empresa anunciou a maior linha de drywall da América Latina, em Feira de Santana, para operar em 2028. Ninguém investe nisso sem enxergar demanda.
Por que vai crescer em 2027: parede interna sobe em uma fração do tempo da alvenaria, gera menos entulho e a instalação elétrica e hidráulica passa por dentro sem rasgar parede.
Na obra: os dois erros que vejo com drywall são sempre os mesmos — placa comum em área molhada e armário pesado pendurado sem reforço. Placa verde (resistente à umidade) no banheiro e na cozinha, impermeabilização no pé da parede, e o reforço do armário previsto antes de fechar. Depois de fechada, é quebrar.
2. Light steel frame: o prazo é o argumento
O steel frame é a estrutura de perfis de aço leve com fechamento em placas. Lá fora é comum; aqui ainda é minoria, mas crescendo — segundo a Abcem, as residências lideram, com 61% das obras em steel frame.
Não vou vender ilusão: steel frame não é automaticamente mais barato no metro quadrado. Estimativas de 2026 colocam a obra completa entre cerca de R$ 2.900 e R$ 6.100 por m², dependendo do padrão.

O argumento dele é outro: prazo. A obra anda muito mais rápido, com menos gente e canteiro limpo. Para quem vai vender, isso é giro de capital. Para quem vai morar, é sair do aluguel antes.
Onde faz sentido em 2027: casa térrea, sobrado, ampliação em cima de laje existente (estrutura leve não sobrecarrega) e obra com prazo apertado. Para prédio de vários andares no padrão que a gente faz na Região dos Lagos, concreto armado ainda manda.
3. Porcelanato de grande formato e placas finas
Esse já está na casa de quem reformou recentemente — e em 2027 vira padrão em lançamento.
Peças grandes (80×160, 120×120 e maiores) e placas finas de cerca de 6 mm entregam menos rejunte, limpeza mais fácil e aquele visual contínuo. O porcelanato também está tomando o lugar do granito e do mármore em bancadas de cozinha, pela superfície contínua e manutenção previsível.
Dica prática: porcelanato grande não perdoa contrapiso torto. Se a base tem barriga, a peça trinca ou fica oca. Exija contrapiso nivelado de verdade, argamassa indicada pelo fabricante com dupla colagem e um assentador que já trabalhou com peça grande. Placa de 6 mm, então, menos ainda. Lembra do Erro #001 da série? O caimento e o nivelamento nascem no contrapiso, não no porcelanato.
4. Energia solar nas áreas comuns do prédio
Energia solar em casa já é conhecida. A novidade é ela entrar no projeto do prédio, alimentando as áreas comuns.
É o que estamos fazendo no Lagos Residence, em São Pedro da Aldeia: energia solar fotovoltaica nas áreas comuns, justamente para reduzir o condomínio. Iluminação, elevador, bombas e lazer na cobertura são o que pesa na conta do prédio — e é aí que a placa paga.
Por que vai crescer em 2027: o comprador está olhando cada vez mais o custo de manter o imóvel, não só o preço de compra. Condomínio mais leve vende.
5. Materiais "verdes" e eficiência energética
A pauta sustentável deixou de ser discurso de folder. Ela virou conta.
A IMARC estima o mercado brasileiro de materiais de construção verdes em US$ 8,7 bilhões em 2025, com projeção de chegar a US$ 16,8 bilhões em 2034 — crescimento de cerca de 7,5% ao ano. O que puxa é eficiência energética e exigência de financiamento e certificação.
Na prática da obra isso aparece como: louças e metais de baixa vazão, iluminação LED com sensor nas áreas comuns, esquadrias com melhor vedação e projeto que aproveita ventilação e luz natural. Coisas simples, que reduzem conta de água e luz do morador.
O que ainda é aposta (não conte com isso em 2027)
Impressão 3D de casas. Dá vídeo bonito, mas no Brasil ainda está em fase experimental ou de uso limitado. Para quem vai construir em 2027, não é opção de mercado.
Material "milagroso" de rede social. Todo mês aparece um bloco, tinta ou revestimento que "revoluciona a construção". Antes de especificar, pergunte: tem norma? Tem obra entregue há mais de cinco anos com ele? Tem assistência técnica na sua região? Se a resposta for não, sua obra vira o teste.
A regra que vale para qualquer tendência
Material novo só vale a pena se você muda o processo junto.
Drywall com pedreiro que nunca montou drywall vira parede torta. Porcelanato grande em contrapiso de obra antiga vira peça oca. Steel frame com projeto de alvenaria adaptado vira remendo.
Antes de trocar o material, troque a pergunta: qual problema da minha obra isso resolve? Se for prazo, gente ou custo de manutenção, provavelmente é tendência que fica. Se for só porque está bonito no Instagram, é moda — e moda passa.
Leia também: Usei o Mais Controle, uso o Sienge, testei uma dúzia de apps de obra — e acabei criando o meu
Sobre o autor: Cristiano Goulart Duarte é engenheiro civil, empresário da construção e autor do livro "5 Passaportes e Um Destino". Acompanhe no @engenharianapratica.io
Perguntas rápidas
Quais materiais de construção vão estar em alta em 2027?+
Os que resolvem falta de mão de obra e custo de condomínio: drywall nas vedações internas, light steel frame em casas e ampliações, porcelanato de grande formato e placas finas (6 mm), energia solar fotovoltaica nas áreas comuns e sistemas industrializados que chegam prontos na obra. Todos já estão em uso no Brasil — 2027 é o ano em que eles deixam de ser exceção.
Drywall vale a pena em obra residencial?+
Nas paredes internas, na maioria dos casos sim: é mais rápido, gera menos entulho e passa instalação com facilidade. O consumo de drywall por habitante no Brasil dobrou desde 2020, segundo a Saint-Gobain. O cuidado é com área molhada (usar placa resistente à umidade e impermeabilizar) e com ponto de fixação de armário pesado, que precisa de reforço previsto antes de fechar a parede.
Light steel frame é mais barato que alvenaria?+
Não necessariamente no metro quadrado — estimativas de 2026 colocam a obra completa em steel frame entre cerca de R$ 2.900 e R$ 6.100 por m². O ganho está no prazo: a obra anda muito mais rápido e com menos gente, o que reduz custo indireto e permite vender ou morar antes. Faz mais sentido em casa térrea, sobrado e ampliação.
Porcelanato de grande formato é difícil de assentar?+
É mais exigente. Contrapiso precisa estar nivelado de verdade, a argamassa tem que ser a indicada pelo fabricante (com dupla colagem) e a mão de obra precisa saber manusear peça grande sem quebrar. Placa fina de 6 mm, então, não perdoa erro de base. Bem assentado, entrega menos rejunte, limpeza mais fácil e aquele visual contínuo.
Energia solar em condomínio reduz mesmo a conta?+
Reduz a parte de energia das áreas comuns — iluminação, elevador, bombas, lazer — que pesa no boleto de condomínio. É por isso que está virando item de projeto em prédio novo, e não só em casa. O tamanho da economia depende do consumo das áreas comuns e do sistema instalado.
Impressão 3D de casas já é realidade no Brasil?+
Ainda não em escala. As iniciativas no país estão em fase experimental ou de uso limitado. Vale acompanhar, mas para quem vai construir em 2027 não é uma opção concreta de mercado.
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Escreve sobre o dia a dia real do canteiro. Autor do livro “5 Passaportes e Um Destino” e criador do app de gestão de obra ALVA OBRAS.
