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Está faltando pedreiro: o problema que ninguém na construção quer admitir

CD
Engenheiro civil · 19 de junho de 2026 · 5 min de leitura
Está faltando pedreiro: o problema que ninguém na construção quer admitir

Semana passada precisei de dois pedreiros pra tocar uma laje. Liguei pra três empreiteiros que sempre me atenderam. Os três deram a mesma resposta: "tá osso achar gente, Cristiano". Não é exagero meu, não. É o que todo mundo que está na obra está sentindo na pele.

A construção está aquecida, tem serviço sobrando — e está faltando quem faça. Esse é o gargalo mais sério do nosso setor agora, e a maioria das construtoras ainda finge que é só uma fase. Não é.

O tamanho do buraco

Não é achismo de quem está no canteiro. Os números confirmam. Uma pesquisa da FGV/CBIC mostrou que 82% das construtoras têm dificuldade pra contratar — o maior índice desde 2012. Em outro levantamento da CBIC, mais de 90% das empresas disseram que não acham mão de obra qualificada.

Em obra média e grande, o déficit chega a 30% da equipe que deveria estar lá. As funções mais difíceis de achar? Pedreiro, armador, carpinteiro experiente, eletricista e encanador. Justamente quem segura a obra.

E o resultado já bate no prazo: cerca de 1 em cada 5 construtoras já está atrasando entrega por falta de gente. Quem tem obra sabe o que atraso significa — multa, cliente nervoso, custo financeiro correndo.

Na obra: quando falta pedreiro bom, não é só a vaga que fica vazia. A produtividade da equipe inteira cai, porque sobra serviço pros que ficaram e a qualidade despenca quando você aceita qualquer um só pra preencher.

Por que isso está acontecendo

Tem gente que joga a culpa só no Bolsa Família ou no Uber. É preguiça de análise. O problema é mais fundo e tem três raízes que eu vejo todo dia.

A turma está envelhecendo

A idade média do trabalhador da construção subiu de 38 para 41 anos entre 2016 e 2023, e hoje está perto dos 42. Os mestres bons que eu conheço estão chegando na aposentadoria — e não tem moleque entrando pra substituir no mesmo ritmo.

É uma conta simples: sai mais gente do que entra. Quando esses caras experientes pendurarem a colher de pedreiro, vai faltar quem ensine o ofício pro próximo.

O jovem não quer ser pedreiro

E aqui dói falar, mas é verdade. O jovem de hoje olha pro canteiro e vê trabalho pesado, sol na cabeça, e a sensação de que "pedreiro não é profissão de respeito". Some isso à percepção de salário baixo e de pouca chance de crescer.

O problema é que essa imagem está desatualizada. Pedreiro bom, especializado em alvenaria estrutural, em centro grande, passa de R$ 4.500 por mês. Tem encarregado ganhando mais que muito universitário formado. Só que ninguém conta isso pro garoto.

Todo mundo virou prestador de serviço

Com app de entrega, serviço autônomo e mil bicos surgindo, o cara que antes ia pra obra hoje tem outras opções — muitas com menos esforço físico e mais liberdade de horário. A obra está competindo por mão de obra com um monte de setor que antes nem existia.

O que dá pra fazer (e o que eu faço)

Reclamar não constrói laje. Então vou direto no que funciona.

Dica prática: forme a sua própria gente. A parceria do SENAI com a CBIC, lançada em 2025, treina trabalhador dentro do canteiro, na obra mesmo. É o melhor caminho que existe: o cara aprende fazendo e já produz. Não espere achar pronto no mercado — o pronto sumiu.

Segura quem é bom. Pedreiro de confiança hoje vale ouro. Pagar um pouco mais, tratar com respeito e dar previsibilidade de trabalho sai mais barato do que viver trocando de equipe e refazendo serviço malfeito.

E invista em produtividade pra depender de menos braço: alvenaria estrutural bem planejada, pré-moldado, construção modular, ferramenta boa. Não é luxo, é sobrevivência. Quem produz mais com menos gente vai sobrar nesse mercado.

O recado

A falta de pedreiro não é fase, é tendência. Quem entender isso agora e começar a formar, valorizar e reter a própria equipe vai estar de pé daqui a cinco anos. Quem ficar esperando o mercado "normalizar" vai apanhar.

Construir sempre foi sobre planejar antes de a parede subir. Com mão de obra não é diferente: ou você planeja a sua equipe hoje, ou vai ficar olhando a obra parada amanhã.

Isso aqui me lembra uma lição que aprendi quando larguei tudo pra viajar o mundo um ano com a família: as melhores decisões não são as mais confortáveis, são as que você toma antes de ser obrigado. Conto essa história inteira no meu livro "5 Passaportes e Um Destino".


Sobre o autor: Cristiano Goulart Duarte é engenheiro civil, empresário da construção e autor do livro "5 Passaportes e Um Destino". Acompanhe no @engenharianapratica.io

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CD
Cristiano Goulart Duarte
Engenheiro civil · Construmad e JLM · +100 mil m² de obra

Escreve sobre o dia a dia real do canteiro. Autor do livro “5 Passaportes e Um Destino” e criador do app de gestão de obra ALVA OBRAS.